15 de novembro de 2009

Mad world.

Era preciso um tremendo esforço para levantar-me da cama e atender o interfone que gritava alto na parede da cozinha. Todo dia tenho que reaprender a andar- meus pés tem o peso de todos os sonhos que sonhei no mundo perfeito dos meus olhos fechados. As minhas pálpebras deixam o monstro do lado de fora.

Esse apartamento que odeio. Essa cama que é pequena demais para abrigar nós duas e os trinta e oito fantasmas. Esse cobertor xadrez que cobre a janela. Essa parede da cor errada. Esse ventilador que incomoda meus olhos. Essas lentes de contato vencidas há meses. Essa tatuagem sempre inacabada. Essa merda toda.

O medo do claro. O pavor de tudo que é exterior a mim. E, enfim: o pavor de mim mesma.

Que venham os sonhos. Que parem os gritos vindo da parede da cozinha.

2 de setembro de 2009

Insônia cria.

Dizer então, com o olhar fixo em um ponto da parede, de maneira rápida que impeça qualquer resposta antes que todas as palavras estejam de uma vez fora de mim e meus pés alcancem as escadas. Dizer então:
que o amor
aca-
bou.

20 de agosto de 2009

Sobre a mistura de improváveis:

Como dizer que os círculos são fáceis? Tenho o compasso!, mas tudo sai torto torto torto. Dou a você os círculos que pelas suas mãos transformam-se em cousas lindas- e nada tortas.
A mim me dou as letras. O escrever e escrever e escrever. Não para pode viver, mas para poder viver melhor.
Danço com as letras, enquanto tu bailas com círculos que podem se transformar em qualquer coisa que quiseres.
O meu seco. O meu molhado. As minhas linhas cheias de cousas tristes, alegres e sem sentido.
Mas quando a arte minha, encontra a sua: algo novo nasce: a combinação perfeita. O amor pela arte- mas sobre tudo o amor daquela que dança com as letras e daquela que baila com as tintas.
Um amor daqueles que só o entende quem dança e baila com o coração batendo em uma sinfonia que de tão imperfeita tornar-se-á um nove acorde.
O acorde imperfeito: aquele que só tem duas notas.
A nota da escrita e a nota das tintas- que separadas não tem grande valia. Mas que juntas tornam-se algo completamente diferente. Tornam-se completos: as letras que um dia solitárias esbarram nas tintas quase esquecidas e, de repente, toda a bagunça tornou-se algo ainda maior do que apenas arte.
E dessa bagunça toda nasce: o amor.

7 de agosto de 2009

Front door.

'A broken voice
In a broken door
A broken choice
That I broke some more
A broken me
Am I breaking you?
And if i push you too hard
I push you right through.'

+

Completamente seca de:
palavras, lágrimas e sensações.

2 de agosto de 2009

Cannonball:

Não é bem o frio. Não é bem a fome. Não é bem a ânsia por cigarros. É algo maior. Ou talvez seja algo tão pequeno que não conseguirei enxergar com meus olhos de humana.
Digo que é imensamente mais fácil ser feliz na tristeza do que nessa felicidade avassaladora.

23 de julho de 2009

Todas as cartas de amor.

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)


Álvaro de Campos.

+

Porque eu sou rídicula.

13 de julho de 2009

Foi em novembro de 2005:

Uma luz branca. Uma forte luz branca. Eu estava deitada e uma sucessão de luzes brancas transpassavam minhas pálpebras. Abri os olhos. Uma mulher loira, com olheiras e um rosto preocupado olhava-me nos olhos. Muitas vozes chegavam até mim, mas eu não conseguia distingüir nenhuma. Senti uma forte dor em meu nariz. Levantei minha mão direita e senti algo saindo dele- um tubo. Eu não morri. Eu estou em um hospítal. Eu não morri. Eu continuo viva. Eu não morri. Deus, por que eu não morri? Eu não morri, mas também não estou viva.

+

"É que o mundo todo vivo tem a força de um Inferno."